Não mude por alguém, mude com alguém
- psijuliasuleiman
- 1 de jul.
- 4 min de leitura

Na vida de muitas pessoas que moram no exterior, há uma coisa em comum: a mudança em razão da carreira da pessoa amada.
Esse assunto do POR alguém ao invés do COM alguém tem rondado meus pensamentos ultimamente e acho que pode servir de reflexão para pessoas que possam se identificar com a situação.
Tanto no consultório atendendo brasileiras e brasileiros no exterior, ou na vida cotidiana conversando sobre mudanças às vezes costumo ouvir relatos de pessoas comentando sobre como foi a decisão de mudar-se de país ou de cidade: muitas vezes a decisão vem a partir de uma proposta que algum dos cônjuges recebeu e que parece ser algo bastante interessante para a pessoa e, muitas vezes, também para toda a família, por conta das oportunidades que podem surgir a todos, proporcionando uma vivência que pode trazer muito aprendizado e crescimento.
Porém, quase sempre quando este tipo de coisa acontece, a contrapartida é que, na maioria das vezes, apenas um dos cônjuges acaba indo empregado ou com um curso em vista. Normalmente o outro se vê em uma situação em que o que existe é esperança de novas oportunidades (ou, às vezes, nem isso) e uma frase que costuma aparecer é algo como: “Estou indo POR CAUSA do trabalho/dos estudos do fulano (a)”.
Pode parecer uma bobeira chamar atenção para a construção da frase, contudo, como psicanalista que sou, “não posso deixar passar batido” e acho que vale conversarmos a respeito, ou melhor, escrever.
Quando fazemos algo POR alguma coisa, acredito que podemos notar um certo peso, obrigatoriedade ou falta de opções. Me passa pela cabeça algo do tipo: “tem que fazer porque sim”, sem que haja um espaço para que as partes envolvidas possam realmente decidir por aquilo, me remetendo a algo como a impossibilidade de outras decisões, algo como se as pessoas envolvidas estivessem submetidas, gerando uma relação meio que de dependência e ordem.
Já quando tomamos uma decisão COM alguém, penso que a relação da frase remete a algo muito mais igualitário, em que as pessoas envolvidas decidem juntas, sem a dinâmica de um peso sobre o outro, mas com a concordância e representatividade dos envolvidos na escolha.
Como já falei um pouquinho, acredito que, sim, muitas vezes uma mudança ocorre porque alguém recebeu uma proposta interessante e que, muitas vezes, as sincronias da vida não são as mais afinadas. Com isso, a consequência é que talvez o outro lado do casal, ou até mesmo os filhos, tenham que abrir mão de planos pessoais, exigindo sacrifícios nas mais variadas áreas para que aquele plano que exige a mudança possa ter continuidade.
Claro que uma coisa é fato: mudança sempre vai exigir certos sacrifícios, arranjos e concessões, não tem jeito, mudar sempre vai nos exigir abrir mão de muitas coisas. Como já diz o ditado: cada escolha, uma renúncia. Mas como bem é dito, há uma escolha, é preciso que as pessoas envolvidas na mudança possam se sentir escolhendo em alguma ordem e não sendo obrigadas.
Por conta disso, acho importante prestarmos atenção em algumas coisas: é preciso que as pessoas envolvidas possam encontrar uma motivação própria para darem o passo da mudança, é imprescindível que todos os envolvidos construam motivações pessoais para que essa jornada que muitas vezes é tão desafiadora não pese apenas nos ombros de uma pessoa, porque, quando isso acontece, o relacionamento pode acabar muito estremecido. Venho percebendo com o tempo que quando isso acontece a dinâmica pode ser tornar muito desequilibrada e a tendência é que as pessoas explodam quando os problemas apareçam, falando ou sentido coisas do tipo: “Tudo isso aconteceu POR causa do fulano/a, se não fosse por tal coisa não estaríamos aqui…”, o que pode ser muito doloroso para todo mundo.
Para aqueles que foram "os responsáveis" pela mudança pode ser super pesado e estressante porque, além de terem que lidar com a própria adaptação e a dinâmica familiar no geral, é possível que se sintam responsáveis pela felicidade da família inteira! Já parou para imaginar como isso pode ser uma responsabilidade impossível para alguém?
E para aqueles que vão POR causa de alguém, a dinâmica também pode acabar seguindo nessa linha e ao invés de traçarem seus próprios caminhos, sonhos, planos e desejos para essa nova jornada, é possível que acabem colocando o peso da própria felicidade sob os ombros do outro que provavelmente vai estar passando por desafios também. Como já diria Freud: "A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz."
Sei que não é um assunto fácil, ele se desdobra em muitas camadas e cada família e casal tem a própria dinâmica e cada um de nós enquanto sujeito tem suas questões, e sim eu sei que existirão situações em que inevitavelmente alguém irá contrariado, mas com esse post quero convidar você a pensar na forma como tem tomado suas decisões, como sua família tem decidido e como vocês podem trabalhar para que diante de cada desafio que a vida apresenta, todos possam ter voz e construir sua própria motivação para seguir, para que as individualidades possam ser respeitadas e para que cada um possa viver os próprios sonhos no seio familiar!
E lembre-se, se isso tem sido um desafio, um problema ou dolorido, não deixe de buscar ajuda, se você, sua família estão passando por questões relativas a desafios familiares, emocionais em meio a imigração... Não deixe de entrar em contato conosco!
Texto de minha autoria originalmente publicado no Brasileiras pelo Mundo



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