Uma reflexão sobre o atendimento a mulheres migrantes - Dia Internacional de combate à Violência contra a Mulher
- psijuliasuleiman
- há 4 dias
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Atualizado: há 3 dias

Desde o início dos tempos o ser humano migra: em busca de sonhos, planos, de uma vida melhor, de novas perspectivas. Diante dos encontros e desencontros da vida novas possibilidades se abrem mediante o vislumbre de um outro lugar, uma nova terra, novas possibilidades.
Ao longo de uma década atendendo migrantes, ultimamente tenho pensado muito sobre as reverberações da violência de gênero na vida das mulheres que migram.
Diante de leis xenofóbicas, diante de relacionamentos abusivos, diante de problemas burocráticos, o quanto as mulheres (e consequentemente seus filhos) se veem reféns de um sistema machista.
Diante da oportunidade que muitas vezes aparece a um cônjuge, ou do desejo de construir uma vida em um país que a partir de certos ideais possibilitaria mais oportunidades, muitas são as mulheres que se vem desbravando novos horizontes e amparadas pelos ideais de família de nossa sociedade muitas são aquelas que se dedicam a criação dos filhos e do cuidado familiar nessas migrações.
Algumas com o desejo de deixar de trabalhar, mas muitas outras até gostariam de continuar no mercado de trabalho, mas por diversas razões acabam não conseguindo preservar suas independências financeiras e em ambos os casos situações de vulnerabilidade financeira, esgotamento mental por falta de rede de apoio na criação dos filhos e muitas vezes até mesmo isolamento social acabam se instaurando.
Em muitos países por questões burocráticas nada favoráveis aos imigrantes algumas profissões se tornam extremamente difíceis de serem validadas, mas além disso, mesmo com profissões com regulamentações mais leves outros impeditivos se apresentam: nem todas as pessoas que mudam de país tem uma fluência na língua anterior a mudança, e muitas vezes com filhos e uma casa para cuidar se torna difícil estudar e capacitar-se para ingressar no mercado de trabalho. Outra coisa que acontece é a dificuldade de ingressar no mercado de trabalho mesmo com uma língua razoavelmente boa por não ter uma experiência internacional anterior.
Existem também as mulheres que de forma independente e autônoma seguem seus próprios sonhos profissionais e acadêmicos, mas que apesar de muitas vezes terem a própria emancipação profissional e financeira passam a enfrentar certos pontos em comum de vulnerabilidade emocional e passam a viver em seus relacionamentos questões relacionadas a dependência emocional que se instaura ao se relacionarem com homens que apesar de não as satisfazerem emocionalmente se tornam pilares em suas vidas pelo medo e receio de se verem completamente sozinhas diante de uma cultura desconhecida a partir do lugar de estrangeiras.
São muitas as dinâmicas e os intercruzamentos de nuances que acabam impossibilitando especialmente mulheres de ingressar não só no mercado de trabalho como mencionado anteriormente, mas ingressar em uma dinâmica em que se sintam partes da sociedade, inseridas no contexto em que vivem. Não raro na escuta a essas mulheres é possível perceber como elas são a todos tempo lembradas de sua estrangeiridade, muito mais que os homens.
Diante das demandas de vida em um novo país, da responsabilidade de administrar filhos, lar e as demandas de um companheiro/a, uma nova língua, novas e diferentes burocracias com relação a questões administrativas e de saúde as mulheres migrantes podem acabar se encontrando em um lugar de vulnerabilidade social, financeira e de dependência tornando-se alvos fáceis e vulneráveis para a violência de gênero e relacionamentos abusivos.
Na bibliografia citada da autora Clarice Lispector temos notícias do quanto sua vida profissional estava aos trancos e barrancos enquanto ela acompanhava seu marido diplomata em suas missões. Assim como também sabemos das instabilidades emocionais que a autora vivia. Quantas não são as mulheres que se veem nas mesmas situações hoje em dia? E quantas não são aquelas que viveram em outras épocas e talvez não tiveram o apoio e o atendimento necessário pela negligência que muito existe aos imigrantes, pelo não reconhecimento deste sofrimento e pela não possibilidade de atendimento pois até então não podiam contar com os meios digitais?
Como se dá o encontro dos ideais que cada mulher tem com os desafios de morar em um outro país, tendo de enfrentar os desafios de se haver com uma nova língua, uma nova cultura, a falta de rede apoio, pessoas com as quais dividir e ver seus sofrimentos reconhecidos, no caso da existência de filhos enfrentar uma gestação, puerpério e os desafios do criar uma criança e em tantas vezes ainda se ver financeiramente dependendo de um parceiro? E em casos de divórcio em território estrangeiro, como essas mulheres se deparam com o cerceamento da liberdade e as impossibilidades de decidir onde residir determinada pela lei ou a iminente separação dos filhos caso decidam por partir?
Neusa Santos Souza no capítulo O estrangeiro nossa condição do livro O estrangeiro fala do feminino na sociedade:
“Outra figura do estranho é o feminino. O feminino pensado como diferença, alteridade - o feminino como Outro. Outro sexo, outro modo de gozo, outra raça, outro país, outra língua. O feminino é o Outro que se opõe ao mesmo, resiste ao um da norma, faz objeção ao todo, a totalização, se contrapõe a ordem dominante. Norma de um lado, feminino de outro. A norma é sempre o masculino, o fálico, o adulto, o europeu.” (O Estrangeiro, 1998, 159-160)
Diante de países e legislações que veem as mulheres enquanto aquelas que pouco são ouvidas, respeitadas, amparadas e protegidas, diante de políticas públicas que pouco ou nada pensam na situação dos imigrantes e que tanto os coloca e os taxa como aqueles que estão sobrando e atrapalhando. O que nos resta quando essas duas lógicas se unem e fazem uníssono no não lugar da mulher na sociedade, qual o lugar possível para essas mulheres que se veem vulneráveis a relacionamentos e dinâmicas de vida em que vivem uma vida em busca da sobrevivência?
No livro Monique se liberta o autor Édouard Louis nos convida a refletir sobre as dinâmicas que são estabelecidas e o quanto elas são reforçadas por condições externas:
“Será possível estabelecer alguma coisa como o preço da liberdade, um preço quantificável racionalmente, matematicamente? Será que uma vez fixado e tornado acessível esse preço a uma maioria, novas fugas surgiriam, se multiplicariam infinitamente? Para dizer de forma mais clara, e portanto, mais violenta: quantas pessoas, quantas mulheres mudariam de vida se tivessem um cheque na mão?” Louis, É. (2024)
O desamparo emocional e físico/logístico na missão de existir e muitas vezes maternar em um outro país, muitas vezes sem rede de apoio e diante da tela de um celular, tendo como obrigação o trabalho do cuidado 24 horas sem descanso muitas vezes com maridos omissos que diante do argumento que trazem o sustento fazem pouco ou nada na criação dos filhos e na manutenção familiar fazem a vida de muitas mulheres migrantes um desafio.
Recebo no consultório muitas dessas mulheres que temem questionar o que de fato vivem pois diante dessas perguntas se deparam com muitos ideais mancos que precisarão ser elaborados e questionados: o que se espera e deseja dessa vida no exterior? Qual o lugar do casamento e de seus companheiros? Se assumo que estou sobrecarregada e infeliz, o que posso fazer diante do fato de viver em um outro país e muitas vezes se ver dependente emocional e financeiramente do marido? Muitas vezes com a sensação de não ter pra onde voltar por que a volta é tida na sociedade como uma falha ou um passo atrás, uma derrota.
Diante da possibilidade de pôr fim ao casamento e decidirem ficar provavelmente nunca tiveram acesso a leis que talvez existam que possam lhe dar um pouco de amparo - mas quantas não são as leis que são extremamente misóginas e xenofóbicas e elas se veem refém do desejo de viver perto dos filhos? Mas diante das dificuldades de estarem enfrentando essas burocracias sem domínio da língua quais as possibilidades?
Não tenho respostas a essas perguntas, mas sigo na escuta dessas mulheres que a partir de um incômodo se permitem falar. Se irão conseguir fazer mudanças significativas em suas vidas em um mundo que pouco suporta as mulheres, não sei, mas estou na torcida e na escuta. E nesse dia 25 de novembro compartilho sobre as minhas angustias sobre os desafios de se ser uma mulher migrante, de lutar por dignidade nesse mundo, de lutar por um espaço digno.
O que podemos enquanto psicanalistas diante desses casos? Venho tentado construir. Mas compartilho com os colegas a necessidade de questionarmos o que pode a nossa escuta diante de um mundo que tem nos trazido novas possibilidades e novos desafios e ao mesmo tempo ainda tão permeado do machismo, de um pensamento patriarcal e da xenofobia que cala a voz das mulheres?



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